Thursday, November 02, 2006

Tempos Modernos



“It was a town of red brick, or of brick that would have been red if the small and ashes had allowed it; (…) It contained several large streets all very like one another, and many small streets still more like one another, inhabited by people equally more like one another, who all went in and out at the same hours, with the same sound upon the pavements, to do the same work, and to whom every day was the same as yesterday and tomorrow, and every year the counterpart of the last and the next.”

(DICKENS; Hard Times)

Palavras como perene, excluídos, liberdade, democracia, desvalorização, lucro, capitalismo, neo-imperialismo, rede, rede de comunicações, sociedade em rede, informação, interatividade, independência, desconforto, destruição, clandestinidade, exacerbação, protesto, dependência, criatividade e cultura permeiam muitos dos textos que se preocupam em analisar a nova etapa da globalização – a que caracterizamos como a intensificação das relações sociais mundializadas, a partir da financerização da economia global e da expansão de um capitalismo cada vez mais subjetivo, porquanto ainda que esteja em todos os lugares, não pertence a lugar algum. O espanto que autores como Luís Fridman apresentam ao observar o novo tipo de relações que constitui a sociedade na contemporaneidade, é análogo ao que esteve presente nos escritos de grandes pensadores como Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx. Estes autores experimentam as vertigens da percepção do provável esfacelamento do corpo social ante a crescente divisão do trabalho, da secularização –e, portanto, da desconstrução do centro ético normativo que regulava e criava a moral da sociedade moderna e do possível caos disto decorrente–, e da intensificação de relações capitalistas de produção –da exploração do homem pelo homem– que acabaram por desmanchar a solidez das instituições sociais estabelecidas nos confins do século XIX.

Fridman reconhece a falibilidade das terias sobre a pós-modernidade, mas ressalta que elas oferecem pistas a respeito dos “ fenômenos novos e decisivos na vida contemporânea e despertam o pensamento para algo que está acontecendo.” Defende ainda que este debate não pode ocorrer baseado simplesmente em questões materiais, mas através da incorporação das questões político-sócio-culturais. Nesse sentido, no âmbito econômico, percebemos a emergência de um novo modelo de organização produtiva. Em oposição ao paradigma fordista, a produção flexível, oriunda da chamada Terceira Revolução Industrial, propõe a ênfase não na oferta (linha de montagem, grandes estoques e produtos estandardizados) mas na demanda (isto é, a produção passa a ser feita just in time, sem o acúmulo de estoques, e os produtos são diversificados, personalizados). Não faltam exemplos da adoção desse novo padrão de produção no mercado: são os veículos, ou carros de passeio e caminhões, dentre muitos outros encomendados pela internet segundo a cor e os acessórios escolhidos pelo futuro proprietário; são as novíssimas e coloridas geladeiras Brastemp; são os computadores cada vez mais compartimentalizados, coloridos, com néon inclusive, e peças dos mais diversos fabricantes.

A segunda grande mudança encontra-se, com efeito, no mundo do trabalho, profundamente modificado por esse novo tipo de produção industrial. Se o fordismo apoiava-se no Estado de Bem-Estar, isto é, no intervencionismo estatal para garantir a viabilidade de sua produção, diminuindo os custos da mesma, possibilitando salários “maiores” e padronizados (“8 hr de trabalho por $5 o dia!”), a especialização do trabalho, a legislação trabalhista e a atuação de sindicatos fortes e conscientes de seus direitos; a produção pós-fordista introduz um “novo tipo humano” e derruba as premissas anteriormente citadas em prol do estabelecimento de relações de trabalho progressivamente desregulamentadas, da adoção do paradigma neoliberal, do subemprego e do trabalho temporário, do enfraquecimento dos sindicatos, do rompimento dos vínculos empregatícios bem como da necessária qualificação dos trabalhadores. De acordo com Fridman: “Junto da impessoalidade da reflexividade institucional, Giddens supõe que a pessoalidade não mais se restaura na busca nostálgica de um ‘calor’ ou de uma afetividade experimentada anteriormente nos contextos de confiança das sociedades tradicionais. Tudo isto foi possível graças a revolução informacional, da instatâneidade do fluxo de informação baseado na revolução das telecomunicações, da incorporação da internet ao processo produtivo. É a compressão do tempo e do espaço.

Mas a qualidade do trabalho também mudou. A nova divisão internacional ou social do trabalho contrapõe-se à divisão clássica, haja vista que não suporta mais a rígida separação entre países industrializados e não-industrializados ou agrícolas. Agora, a segregação se dá de maneira distinta. Tendo em vista a expansão das indústrias pelo globo, bem como a transnacionalização do parque industrial dos países periféricos, cabe aos países centrais o gerenciamento da produção mundial de bens. Passam, com efeito, a controlar os setores de inteligência, propaganda, logística, marketing, design, ou seja, o trabalho imaterial (caracterizado sobretudo pelo setor de serviços). Essa divisão também é incorporada ao plano interno dos Estados. Exemplo disto é São Paulo, a grande metrópole global brasileira, na qual após sofrer um processo de descentralização industrial –pelo qual ocorre o deslocamento das grandes indústrias dos centros urbanos movimentados e hipertrofiados para as médias e pequenas cidades, bem como a transferência da produção de bens de consumo não duráveis e de baixo valor agregado, para as periferias do país como o Norte e o Nordeste –, a cidade continua a concentrar os fluxos de capital e investimentos. Ou seja, o produto daquilo que é produzido nestas regiões retorna à SP, do mesmo modo que o que é produzido nos países subdesenvolvidos, retorna aos centros capitalistas de maior desenvolvimento.

Com relação à sociedade em rede, Castells delineia novos desafios a serem enfrentados de acordo com inclusão das novas tecnologias da informação. Parte da dicotomia existente entre aqueles com acesso a essa nova tecnologia e que, portanto, usufruem de todos os benefícios que ela possa trazer, e daqueles que são excluídos deste processo. A segregação deixaria de apoiar-se na clássica divisão entre Norte e Sul e passaria acontecer no âmbito das relações sociais (nacionais ou internacionais). Entre os que estão incluídos e os que estão à margem da sociedade em rede. Esta exclusão pode ocorrer por diversos mecanismos: “falta de infraestrutura tecnológica; obstáculos econômicos ou institucionais ao acesso às redes, capacidade educacional e cultural limitada para usar a Internet de maneira autônoma, desvantagem na produção do conteúdo comunicado através das redes.” Segundo o autor a economia ainda carece de adaptação às novas tecnologias.

Na comunicação de massa, somos a todo tempo bombardeados com um show de imagens de todos os tipos, cores e tamanhos. Uma poluição de visual e informacional que nem mesmo a mais sã das consciências consegue absorver. Essa nova gramática responde ao imediatismo da vida urbana cada vez mais agitada, diferente do habito literário antes prevalecente. A sociedade do espetáculo, para utilizar as palavras de Guy Debord, é incorporada pelos meios de comunicação e não o inverso. Integra-se ao processo de significação da realidade, da produção de uma hiper-realidade, de uma realidade-virtual. A catarse que ela provoca é refletida naquela Gente Humilde, dentro e fora da “telinha”. Nesse sentido: “quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo... É por isso que o espectador não se sente em casa em lugar algum, porque o espetáculo está em toda a parte.” (Debord, in.: Fridman)

Com isso concluímos que aquilo que era antes atribuído ao processo de industrialização e urbanização européia, de acordo com a proposta de Charles Dickens em um dos seus livros, clássico da literatura moderna, da mesma forma, na pós-modernidade, a desterritorialização das relações humanas, através do maior fluxo de investimentos, informações, bens, serviços e pessoas, e sobretudo da apropriação da tecnologia da comunicação e da informação pelos centros capitalistas gestores da economia mundial, atribui-se a essa sociedade, a sociedade do espetáculo, o absurdo da vida contemporânea.

Tuesday, June 27, 2006

O Século da Apoteose



O filme “Nós que aqui estamos por vós esperamos” traça um painel do século XX através de imagens, é um panorama visual e poético de um século de extremos, parafraseando Hobsbawn. O filme memória de Massagao utiliza imagens históricas, de outros filmes- como clássicos do cinema mundial- para conduzir o espectador através de um olhar único desse século. A vida comum, pessoas ordinárias - mesmo as histórias sendo fictícias, elas são reais- têm sua historia ali contada, e através dessa pessoas, também de grandes pensadores, cenas impressionantes levam de forma não linear os 100 anos provavelmente, mais controversos da historia humana.

O século vinte é marcado pela constante tentativa humana de dominar a natureza. Porém, esse fato não é inédito na historia humana, mas sim uma constante. No entanto, é no século passado que o homem consegue tanto controle que há um processo de desnaturalização das ações. A desumanização é evidenciada no filme pela guerra, afinal nunca se produziu tamanha barbaridade. É na guerra, nas trincheiras da primeira guerra, nas câmaras de gás, nos campo de concentração da 2ª Guerra Mundial que o processo de desumanização, conseqüência da eterna tentativa de controlar a natureza, que o homem encontra seu próprio fim. Um dos poucos momentos do filme em que a bela trilha sonora é o som real das cenas são nas cenas de guerra, nas quais o som é de tiros, bombas. É no século XX que matar passa a ser um ato de apertar um botão, de não ver mais o inimigo, é quando, no maior dos paradoxos, a guerra vira limpa. A vida permeada pela guerra, a vida de um soldado, é a trajetória de uma família na qual o bisavô lutou na 1ª Guerra Mundial. A condição humana é retratada nas trincheira da Grande Guerra, ora ouvindo o rádio no Vietnã, ora nas condições de vida subumanas na mina de ouro, ora as conseqüências do crash da bolsa de 1929. A cena da criança miserável à espera de um Deus que nunca chega.

A linha de montagem, brilhantemente representada pelo Chaplin em Tempos Modernos, também aprece no filme. É a “desintelectualizaçao” do trabalho. Não é mais preciso pensar, só ser rápido. As mulheres também entram na linha de montagem, fato que é mais evidente na parte do filme que as mulheres em empresas bélicas na época da primeira guerra. O homem máquina, a cultura de massa, tudo se torna bussiness, se torna rápido, fácil. O cinema tem grande crescimento, as cidades passam por amplas reformas. É uma revolução cultural.
Revolução cultural também ocorre na China de Mao anos depois. Apesar do nome, a revolução cultural foi uma das maiores monstruosidades de um ditador. Alunos matavam professores, a arte passava as ser fiscalizadas, a vida era monitorada para se adequar a padrões irreais exigidos “pela revolução. Apesar das atrocidades cometidas pelos destorcidos Mao, Pol Pot, Hitler, Stalin, Pinochet entre outros, a revolução é a marca desses 100 anos, a revolução sexual, a feminina ( “we can do it!”), woodstock, os hippies, são todos momentos inesquecíveis. Até para quem não os viveu.

O século XX também é caracterizado pelo brilhantismo de Ghandi, Lennon, Timothy Leary, Martin Luther King- esses estão na Lua conversando sobre assuntos terrestres numa sátira do diretor-, Nijinski, Josephine Baker, Garrincha e Fred Astaire, esses dois últimos mostrados num paralelo de dança com o samba como trilha sonora. É claro que um século tão controverso a arte não poderia faltar. Ela é representada pelo cinema em ascensão nos anos 1920. As cenas de filme utilizadas tanto como cenas da vida no século XX são uma forma de homenagear a sétima arte. É importante ressaltar o surgimento da cultura de massa, o rádio, a televisão. Pela dança de Fred Astaire, pelo balé de Garrincha, pelas obras de Duchamp, de Munch (com sua angústia tão representativa de um século marcado por duas grandes tragédias), por Hopper, por Leonílson e seu vazio, por Arthur Bispo do Rosário e sua loucura genial. O século que se foi, era sem dúvida, um dos mais criativos, dos mais inventivos.

O filme que tem em Freud como guia, pode ser sintetizado pela frase do seu próprio condutor “o homem já não é senhor da própria causa”. O filme de Marcelo Massagão produziu é uma obra visual, poética com a bela trilha de Wim Mertens brincou com as perspectivas de pessoas comuns num século grandiloqüente com uma musica que dá nexo a historia. A opção pela não linearidade do filme tem respaldo na turbulência do período retratado. O nome do filme, referência aos letreiros das portas dos cemitérios, é uma síntese da mortalidade do homem diante da eternidade da história.
Sugestão: escutar ou a trilha sonora do filme, ou Cavalgada das Valquírias de Wagner para ler o post.

Monday, June 26, 2006

Nascidos para Matar: uma análise antropológica do clássico de Stanley Kubrick



“Quando a guerra pôs em xeque as conexões racionais do mundo pré-guerra – isto é, o nexo de causa e efeito – , o significado da civilização como realização tangível se viu atacado, bem como a visão do século XIX de que toda a história representava o progresso. E quando o mundo exterior desmoronou em ruínas, o único reduto de integridade se tornou a personalidade individual.” (EKSTEINS, Modris, 1992:270).


1. O Social e o Cultural - a formação da identidade nacional

A análise da esfera subjetiva em que se encontram o cinema e as artes é o objeto de nosso estudo. Estamos imersos em um mar de concepções acerca das nossas relações com o mundo e com a política, de modo que elaboramos imagens, sobre nós mesmos a fim de entender e legitimar as nossas ações. Estes parâmetros orientam nosso julgamento do que é considerado ordinário, sociologicamente padronizado e aceito em oposição àqueles comportamentos denominados “desviantes”. Nesse caso, a função da cultura compreende a elaboração social de significados, do senso comum e da consciência de um povo. O indivíduo, dever-se-ia ver, como em um momento catártico, refletido no corpo social do qual ele faz parte. Racionais ou irracionais, as ideologias são discursos acerca de determinados assuntos os quais podemos absorver ou rejeitar. Devemos estudar, pois, o que está por trás destas construções, haja vista que a irracionalidade é um instrumento de poder muito forte, inclusive com a capacidade de alimentar a manipulação da opinião pública e do homem comum. (Weber, Cynthia. Introdução) Roberto Damatta, em seu livro sobre o método da Antropologia, Relativizando – uma introdução à antropologia social, nos ensina a diferença entre social e cultural. “entre as formigas (e outros animais sociais) existe sociedade, mas não existe cultura. (...) não há cultura porque não existe uma tradição viva, conscientemente elaborada que passe de geração para geração, que permita individualizar ou tornar singular e única uma dada comunidade relativamente às outras.” (Damatta, 1987) As tradições, um conjunto de características e símbolos de uma dada sociedade, são transmitidas de geração para geração através da socialização, da educação formal (das academias e escolas de ensino fundamental, médio e superior) e informal, como por exemplo, os jogos e brincadeiras com os amigos da rua e as regras e normas que devem ser obedecidas dentro de casa. Toda essa bagagem de ensinamentos, leis e padrões sociais pressupõe uma série de escolhas, inclusões e exclusões, que perfazem uma ou outra sociedade, num esforço intelectual constante e dialético de definição de nós mesmos “ou [daquilo que] queremos ser” e do outro, ou seja, o estranho, o estrangeiro –e que, “logicamente, nós não devemos ser”. (Damatta, 1987)


2. O pré-Guerra e a condição liminar

Numa situação de guerra essa rivalidade implícita é manipulada de forma a exaltar o patriotismo, o sentimento de pertencimento a uma coletividade e reafirmação da mesma, em oposição ao inimigo, geralmente, transformado em um ser demoníaco ou caricatural. Essa fase pré-guerra é percebida, no filme, durante o treinamento dos soldados americanos na qual são proferidas sentenças com a intenção de difamar a imagem do líder comunista chinês Ho Chi Min e ao decorrer do conflito, quando os vietnamitas são classificados de forma pejorativa como “amarelos” e os americanos adotam uma posição de superioridade, até mesmo de proteção em relação ao povo local (“- Estamos ajudando essa gente e eles sequer nos agradecem”, diz um dos personagens). A conscrição universal é uma característica da especialização dos exércitos modernos. Um método utilizado inicialmente por Napoleão Bonaparte e que deu o tom das organização dos demais exércitos nacionais europeus, naquilo que ficou conhecido como levé en masse. Não podemos esquecer, com efeito, que o século XIX é o século europeu. A expansão dos valores desta sociedade tornava-se, pois, inevitável. Segundo José Murilo de Carvalho, por exemplo, as Forças Armadas brasileiras do final do Império e da Primeira República, tornaram-se “instituições totais” (Erving Goffman). “Essas instituições, pelo fato de envolverem todas as dimensões da vida de seus membros, constroem identidades fortes. Quando plenamente desenvolvidas, requerem de seus membros uma radical transformação de personalidade. Uma identidade mais forte aumenta o grau de autonomia da instituição em relação ao meio ambiente.” (Carvalho, 2005) Arnold van Gennep define rito como um “estágio intermediário” entre duas situações, um “ato de um gênero especial, ligado a uma certa tendência de sensibilidade e determinada orientação mental.” É importante, contudo, discernir entre as três fases que caracterizam os ritos: separação, margem (liminaridade) e agregação. No filme, a primeira delas aprece no isolamento dos soldados encarcerados em um campo de treinamento, “o afastamento do indivíduo ou de um grupo, quer de um ponto fixo anterior na estrutura social, quer de um conjunto de condições culturais ou ainda ambos.” (Turner, 1974) Na fase intermediária ou de liminaridade, a personalidade do sujeito ritual vai sendo moldada de acordo com o novo papel social que será desempenhado daí em diante por este indivíduo. A noção de individualidade, todavia, é relativizada, vez que empreende-se nesse período a homogeneização dos elementos vinculados a esta situação. Segundo Turner, “Seres liminares, não possuem ‘status’, propriedade, insígnias, roupa mundana indicativa de classe ou papel social, posição em um sistema de parentesco, em suma, nada que as possa distinguir de seus colegas neófitos ou em processo de iniciação. Seu comportamento é normalmente passivo e humilde. [...] O neófito, deve ser uma tábula rasa, uma lousa em branco, na qual se inscrevem o conhecimento e a sabedoria do grupo, nos aspectos pertinentes do novo status. [...]” (Turner, 1974) Os soldados do filme, isolados da estrutura social, postos em situação liminar, sofrem um processo pelo qual são despidos de suas crenças e de seus hábitos. Não possuem status, nem propriedade ou insígnia porque ninguém dentro daquele ambiente, senão o instrutor (R. Lee Ermey), possui vantagens e é diferenciado. Vestem uniformes, comem do mesmo pão, bebem da mesma água. Possuem os mesmos direitos e deveres. Têm o mesmo corte de cabelo. Executam as mesmas tarefas. Cantam os mesmos hinos. Devem lealdade ao mesmo presidente. Preparam-se para proteger a honra e engrandecer a mesma pátria. São todos filhos de peregrinos. São todos filhos da mesma terra. Existe um arranjo de total horizontalidade entre essas pessoas.


3. Nacionalismo

Montserrat Guibernau argumentou que o nacionalismo enquanto uma ideologia política pode ser utilizado como um instrumento eficaz a fim de incitar as massas à ação, sobretudo em momentos de exceção como o é a guerra. "O apelo à unidade nacional e aos valores nacionais serve para estimular o senso comunitário de todos os cidadãos." Isso acontece, por exemplo, "quando um partido está tentando impor uma política que implique a expansão do Estado nacional (...) ou quando o Estado nacional, por algum motivo, se acha ameaçado e o partido [político] precisa acentuar o seu caráter nacional". (Guibernau, 1997) Turner acrescenta que naqueles casos em que a liminaridade pretende forjar tal unidade nacional em oposição a um inimigo externo "(...) não somente o chefe, (...) mas também os neófitos, em muitos ritos de passagem, devem submeter-se a uma autoridade que nada mais é do que a comunidade total. Essa comunidade é a depositária da gama completa de valores da cultura, normas, atitudes, sentimentos e relações. Seus representantes nos diversos ritos (...) representam a autoridade genérica da tradição." (Turner, 1974: 127)


4. Conclusão

Percebe-se, pois, que o sentimento nacionalista, ainda que comporte certa sistematização, caracteriza-se sobretudo por seu alto grau de subjetividade. Desafia a racionalidade, justamente porque, como falávamos na introdução do texto faz parte da esfera subjetiva das interações entre os indivíduos. É uma ideologia construída dentro de um contínuo de relações sociais que incluem não só os atores com quem interagimos diariamente – através da nossa identificação com os mesmos, da absorção de seus ensinamentos e de suas crenças ou, em uma palavra, da força da tradição –, mas também dos objetivos dos formuladores de políticas e das elites intelectuais, políticas e econômicas, como mostrou-nos Marx.



*Obs.: Este é apenas o "abstract" de um trabalho que possui mais de 10 páginas. Em vista disso, talvez existam alguns pontos em que a correlação de fatores não esteja clara. Posted by Picasa

Thursday, January 19, 2006

Benedetti e uma reflexão sobre as artes

Pede-se a um leitor de conhecimento razoável que liste nomes de autores em Língua Espanhola. Começará pelo básico: Miguel de Cervantes, Jorge Luís Borges, Pablo Neruda, Isabel Allende. Se for um pouco mais curioso, falará em Mario Vargas-Llosa, em Julio Cortázar, em Federico García Lorca. Bastante interessado em Literatura e no idioma, lembrará ainda Octavio Paz, Carlos Fuentes, Manuel Montalbán Vasquez, Gabriela Mistral, Manuel Rivas, Manuel Puig. Não importa que não os tenha lido todos, é suficiente o teste de inconsciente coletivo: a possibilidade de alguém citar (ou sequer conhecer) Mario Orlando Hamlet Hardy Brenno Benedetti é tão grande quanto a possibilidade de os britânicos passarem a repudiar William Shakespeare ou de os norte-americanos deixarem de lado sua quase inexplicável paixão por Fitzgerald.
É uma omissão e tanto. Partindo do tema comum aos escritores ibero-americanos, as ditaduras militares, Benedetti consegue fugir às histórias demasiado políticas, técnicas, no que me acostumei chamar "Literatura de Externas". "De externas" porque nunca se sabe o que passa de fato entre os personagens, visto que tão ocupados estão em organizar golpes, angariar poder, calar subversivos. Fala de tudo isso, é verdade, mas gosta de fazer interferirem em suas histórias mães, pais, esposas de corpos quentes, jornalistas responsáveis por horóscopos de periódicos locais. Gosta de dizer, em suas entrevistas, ter a certeza de que poema algum trará a revolução, e por isto se saber defensor de utopias. É a forma modesta que encontra para esquivar-se da beleza incontestável (e da força, por que não?) de sua poesia e de sua prosa.
O vício das muitas gerações do século XX, a política, acaba por criar desses fenômenos. Um homem pensa que nada faz pelo mundo até o momento de chegar ao poder ou pegar em armas ou formar uma sociedade alternativa (às vezes tão hipócrita quanto aquela original). Mas as artes são campos, sete campos - talvez oito, pois algum dia nos convencem de vez que futebol também é arte. São revoluções fechadas, e por isso possivelmente as mais verdadeiras. São íntimas. Até mesmo o dadaísmo é íntimo, como tudo para que falta uma descrição. A política, salvo as discussões que nela criamos, é simples, pode ser traçada em fatos. Em 1968, o General Costa e Silva decretou o AI-5. Em 1989, Fernando Collor de Mello foi eleito presidente do Brasil. Em 2005, o "mensalão" tornou-se sinônimo de mais uma decepção política brasileira. Se há alguma graça na política, é porque a transformamos em arte. Nos discursos, floreados, empostados, breves: o teatro. Nas campanhas ou nos manifestos: a música. Nas lutas de rua, na boca-de-urna: a dança. O presidente coloca a faixa, o povo se veste de negro, uma revolução no Irã: o cinema. A análise do discurso, a persuasão: literatura. Militares contra civis: escultura. Uma vitória de Napoleão: pintura. As artes são a expressão (positiva ou negativa) da emoção.
Afora isso, têm um significado histórico gigantesco. Os desenhos dos egípcios desnudam parte do mistério a respeito de vidas cotidianas datadas de mais de dois milênios. A Bíblia, dispensada a discussão sobre seu teor religioso, é um livro de grandes e de pequenas histórias contadas com palavras escolhidas a dedo. Um álbum de uma branca com voz de negra, Janis Joplin, é o suficiente para nos remeter a um tempo de luta por uma real democracia racial nos Estados Unidos. Por alguma razão, se a política dificilmente se altera, e se os termos permanecem os mesmos, são as artes as únicas a refletir de modo cru e claro os pensamentos de uma sociedade (rica, pobre, sexista, democrática ou racista). Assim, a alma latino-americana presente nos livros de Mario Benedetti pode não ser a borboleta a desencadear um terremoto em outro ponto do globo, mas cria pequenos tremores de prazer e de esperança em quem com ela tem contato.

Saturday, January 07, 2006

Resposta ao Garcia Marquez (texto escrito por Manoela Assayag)

Gostaria que metade do planeta tivesse lido "Cem anos de solidão" e tentasse fazer a outra metade fazer o mesmo.Gostaria que este romance fosse lido por todos nós que nascemos entre a Patagônia e os confins do Canadá.Uns para se reconhecer; outros para conhecer aquela vasta gama de Gente ao Sul deles mesmos. Quem é esta gente?

Por quê "Cem anos de solidão" ? Nem eu mesmo sei, ao mesmo tempo é tão claramente óbvio. A minha identidade de América Latina é aquela descrita ali. Como se fossemos nós o Macondo de GGM.Estamos separados da civilização por uma selva impenetrável.Descobrimos o novo quem vem de além-nós como José Arcadio descobriu o gelo. Jornais,revistas e tv's são como o Melquíades para nós. Somos tão superticiosos como a Úrsula e desconhecemos o nosso passado e a nossa origem exatamente como Rebeca.

Mas somos simples e puros ou ingênuos como os habitantes de Macondo, e muitos de nós somos rebeldes e recusamos baixar a cabeça tal qual José Arcádio, o pai. Taí o "meu" Macondo, ou se quiser, a "minha" visão de América. Fui ontem ao CCBB ver a exposição "por ti América" e confesso que a América pré-colombiana não me encantou muito. Gosto da "América" do meu imaginário de "Cem anos de Solidão". Respeito os nossos mais distantes ancestrais, mas são aqueles que resistem ao ferro e ao fogo da arma do inimigo os que mais me cativam. São os Aurelianos da vida.

Não conheço metáfora para morte mais bonita que a da morte de José Arcádio Buendia, com a passagem pelos quartos dos espelhos.José Arcádio é o maior herói do romance,por ser quem inicia tudo, o desbravador de macondo,por ser quem inicia a saga da família ao se casar com a prima mesmo que por isso, segundo ele mesmo "tivessem que parir iguanas" É com ele que temos as mais belas e poéticas passagens do livro: o encanto com o gelo,o tapete voador que passa pela sala,a doença do esquecimento e a sua própria doença e como ele encara a própria loucura. Me emociono com a parte que relata como Prudêncio Aguilar envelhece dentro da própria morte e se morre dentro dela.Vem daí a bela passagem de se amar o seu maior inimigo devido a uma solidão dantesca.

A morte de tal herói é um acontecimento dígno de sua grandeza no texto.É uma verdadeira morte anunciada, e é bela. Chove flores, o indio Cataure volta para o enterro do rei e seu ex-desafeto, Prudencio Aguilar toca-lhe no ombro num quarto intermediario e ele ali fica para sempre. É simples, é belo, é poético, é grandioso. Não conheço morte mais dígna na Literatura.

Eu poderia aqui me alongar em horas a fio só falando sobre " Cem anos de solidão".mas aí poderia ocorrer oque aconteceu comigo na UFRJ no semestre de Literatura Hispano-americana,quando eu tentei fazer uma monografia sobre este livro. era tanta coisa a dizer, tantas as possibilidades, tamanha a emoção, que foi tudo um fiasco só.
por Jonas Carvalho

Wednesday, December 07, 2005

Teologia da Libertação – a América Latina polemizando


Surgida das quatro Conferências Gerais realizadas pelo Episcopado da América Latina – no Rio de Janeiro em 1955, em Medellín em1968, em Puebla em 1979, e em Santo Domingo em 1992 – a Teologia da Libertação reconhece na conjuntura dos primeiros anos da década de 60 seu nascedouro, no contexto da cunhagem da terminologia "subdesenvolvimento".

Fruto de uma estreita associação entre as linguagens da teologia e da sociologia, sobretudo de orientação marxista, a Teologia da Libertação emerge na esteira das reformas proclamadas pelo Papa João XXIII em conjunto com o Concílio do Vaticano II (1962/1965), introdutor de uma série de medidas modernizantes na Igreja Católica. Valorizando movimentos leigos, propondo uma maior interação entre os indivíduos do clero e incentivando o seu envolvimento em questões sociais, acredita-se que a Igreja adotava, finalmente, uma orientação em torno da construção de uma base popular de apoio às articulações eclesiásticas, para alguns, a grande deficiência da Igreja Católica no Brasil. Apesar de tipicamente européia, a reforma foi obter grande repercussão no contexto sócio-cultural da América Latina da época.

Essa repercussão e a natureza da nova corrente teológica se expressam com clareza nas palavras de Clodovis Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação no Brasil: "A América do Norte, em especial os EUA e os países europeus, sempre impuseram aos latino-americanos seus valores, suas políticas, sua cultura, etc. Nesse sentido, a libertação no seio da América Latina é a luta pela liberdade de sua cultura, valores, economia e política frente às diversas opressões advindas de uma modelo imperialista que rege a práxis do hemisfério norte em suas relações com o sul". Permeado de terminologias características, o trecho deixa claro o predomínio da ideologia marxista na análise social feita pela nascente corrente teológica. A justificativa para tal fica por conta dos dados de extrema desigualdade social que historicamente assolam a região, e que servem à alegação dos defensores da TL de que fazer uma teologia que ignorasse o sofrimento real dos povos latino-americanos significaria fazer uma "teologia de condomínio", fechada à realidade e restrita às minorias.

Diante de sua natureza intrinsecamente ambígua, a grande discussão travada acerca da nova corrente diz respeito à essência de seu conteúdo, que oscila entre a exaltação de uma fé fiel aos princípios da Igreja, orientada sobretudo pela exaltação do Deus bíblico defensor da justiça (social) e da fraternidade, e por isso não mais fonte de discursos etéreos (mas sim transformadores); e à crítica de uma suposta redução da fé ao discurso político, ligado ao perigo vermelho, bastante significativo na conjuntura de seu nascimento, a Guerra Fria. Pregando a libertação como valorização da paternidade de um Deus que não mais se encontra numa esfera trans-histórica, mas que se apresenta constante na práxis do povo que luta pelo fim de toda opressão e, portanto, pela dignidade humana, a Teologia da Libertação, permanece até os dias atuais marcada pelas veementes críticas a seu caráter anti-conservador, principalmente com relação à tradição da própria Igreja. Seus teólogos de destaque no país são Leonardo Boff (irmão do já citado Clodovis Boff), Carlos Meister e Frei Betto.

A despeito das críticas, a Teologia da Libertação, se encarada como um símbolo de manifestação sócio-religiosa-cultural própria da América Latina, indubitavelmente constitui um dos marcos da lenta e reticente ascensão do continente às esferas mundiais de atuação e discussão. Por fim, é preciso salientar o fato de que, em meio às diversas vozes simultaneamente ouvidas durante o conturbado século XX, América Latina se fez notar não somente nos âmbitos político ou econômico e não apenas por concordar ou prestar seu apoio, mas também por ser capaz de contestar.

Por Fernanda Pernasetti de F. Figueiredo

México Rebelde - John Reed

John Reed – México Rebelde

Começou a trabalhar como jornalista em uma revista comercial, mas rebelou-se contra o estilo de vida burguês que levava e, em 1913, uniu-se a um grupo de artistas e escritores socialistas que editavam a revista The Masses.O ano de 1913 ainda não tinha terminado e John Reed já embarcava para o México, como correspondente de guerra. Viveu durante vários meses com as tropas do rebelde Pancho Villa e, em 1914, a cobertura que fez da Revolução Mexicana saiu publicada em livro, com o título de México Rebelde.

Seu livro abordava a Revolução Mexicana sob o olhar dos camponeses e sua luta pela Reforma Agrária. Reed, com sua literatura jornalística abordava a revolução detalhadamente, a partir dos quatro cantos do México. Sua crítica se dava a partir do anonimato dos guerrilheiros camponeses, e sua demanda por terras, num grito desesperado por inclusão. Sua crítica também partia do Estado Mexicano, que necessitava de reformas tanto no campo político, quanto nos campos econômico, cultural e social.

Ao mesmo tempo que demonstra o espetáculo do povo insurgente, do povo empenhado nas jornadas para sua redenção, Reed não se esquece da miséria, do detalhe da humildade econômica da população em busca de liberdade. Em seu livro está o paradoxo das multidões esfarrapadas que estão inabaláveis na sua decisão de transformarem o mundo de miséria que vivem.

A união entre os camponeses do norte (sob a liderança de Pancho Villa) e do sul (sob a liderança de Zapata) para derrubar um governo ditatorial está bem refletida no livro. Grandes personalidades da Revolução Mexicana entre eles, Pancho Villa estão bem retratadas no livro de Reed.

Reed busca demonstrar a luz e a sombra da Revolução Mexicana (ou será de todas as revoluções) em seu livro. A glória, a justiça e a luta por liberdade por um lado ; a tirania, mesquinharia e degradação dos oportunistas e aproveitadores. Certamente, Reed não era um jornalista neutro.

Considerado quase que o iniciador do jornalismo moderno nos EUA, John Reed morreu jovem, aos 33 anos, em 1920, vítima de tifo. Foi enterrado no Kremlin, em Moscou, onde até hoje repousa como herói da Revolução Russa.

Outros livros sobre a Revolução Mexicana :
Zapata, de H. H. Dunn
Pancho Villa, de William Douglas Lansford
A Democracia no Mexico, de Pablo Gonzalez Casanova

Filme sobre a vida de John Reed :
Reds – Com Warren Beatty e Diane Keaton

Tuesday, December 06, 2005

Diário de Motocicleta

Diário de Motocicleta

O filme Diário de Motocicleta retrata a viagem feita na década de 90 por Ernesto Che Guevara e seu amigo Alberto Granado pela América Latina. O objetivo, a princípio, era percorrer cerca de 8000 km e explorar o continente que até então só conheciam através dos livros, questão que os deixavam intrigados pois tinham um amplo conhecimento da Grécia Antiga e da Europa, mas em compensação não tinham o mesmo pelo seu próprio continente, sendo esses um dos motivos que os fizeram partir para a explorar o território latino americano.

Os viajantes partiram da Argentina passando por diversos lugares e chegando ao destino final que seria a Venezuela. No decorrer da viagem são surpreendidos pela extraordinária geografia física e humana do continente, o qual havia muita pobreza, fazendo com que os dois mudassem de mentalidade ao longo da viagem, principalmente Che. Aos poucos eles começam a se sensibilizarem com a extensa pobreza e desigualdade existente no continente. Um dos principais fatores dessa mudança foi sentido quando chegaram na colônia da San Pablo no Peru (Amazônia peruana) onde havia um leprosário. Este leprosário era composto de uma verdadeira segregação entre os doentes, os quais se localizavam na zona sul da colônia, e os médicos e companhia que se encontravam ao norte da colônia, esta que era dividida pelo rio Amazonas, sendo que essa questão da segregação foi uma da que mais tocou Che.

Lá mesmo, na colônia, Che começa a aprofundar seus princípios revolucionários, sobretudo quando faz um discurso a respeito do desejo de uma América unida, sem divisões de nacionalidades, mas sim uma América constituída de uma única raça mestiça, que podemos ver uma certa influencia de Simon Bolívar que teve esse mesmo desejo no século XVIII a respeito do Pan-americanismo (bolivarismo). Notando assim o tanto que essa viagem influenciou os pensamentos e princípios de CHE.

Sendo uma viagem a princípio com o objetivo de aventura, e no fim acaba definindo o destino de um dos maiores lideres revolucionários do séc XX. Oito anos após a viagem Ernesto já se torna o tão reconhecido Che Guevara um dos lideres mais proeminentes e inspiradores da Revolução Cubana na qual lutou por seus princípios, muito deles adquiridos na viagem pela América Latina. Sendo assim uma viagem de autoconhecimento e transformação para Che.

A América Latina de Gabriel García Márquez


Essa era a minha vida em 1932, quando foi anunciado que as tropas do Peru, que vivia debaixo do regime militar do general Luis Miguel Sánchez Cerro, tinham tomado o desguarnecido povoado de Letícia, nas margens do rio Amazonas, no extremo sul da Colômbia. A notícia retumbou no país inteiro. O governo decretou a mobilização nacional e organizou uma coleta pública para recolher de casa em casa as jóias familiares de maior valor. O patriotismo exacerbado pelo ataque arteiro das tropas peruanas provocou uma resposta popular sem precedentes. Os arrecadadores não descansavam um segundo, recolhendo de casa em casa as doações voluntárias, sobretudo as alianças de casamento, tão estimadas pelo seu preço real e por seu valor simbólico.”
(Viver para Contar)

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos.”
(Cem anos de Solidão)



Fazendo o quase impossível, transformando o uso intenso de adjetivos em instrumento respeitado na Literatura, Gabriel García Márquez construiu uma obra extensa sobre uma América Latina que parece existir apenas em seus livros. Como sua avó, Tranqüilina Iguarán, ou como sua personagem mais célebre, Úrsula Iguarán, ele parece tatear no escuro e recriar, com os olhos que apenas a cegueira pode oferecer, um cenário mágico e colorido por trás de cada desalento. Celebrando-se esta profusão de perfumes e de impressões próprios da terra, cada pequena história tem seu lugar, cada personagem simples tem sua emoção. Uma prostituta é sempre mais do que uma vendedora de sexo, o alquimista está distante de ser um lunático, a lavadeira pode ter uma importância fundamental.

Neste sentido, a obra de García Márquez não apresenta quaisquer preconceitos. A cultura guajira é elevada a um caráter pleno, sendo o autor um orgulhoso costeño (leia-se: originário da costa caribenha da Colômbia e, por isto, normalmente mestiço de índio). Os homens (e as mulheres) estão para todos os gostos: messiânicos, incansáveis, castos, belos, excêntricos, animalescos. As guerras civis, entre liberais e conservadores, jamais têm resultados definitivos. Um liberal verdadeiro é conservador, um conservador verdadeiro é liberal; e, nesta ciranda, Gabito reparte seus homens entre ambos os partidos, à moda do que ocorria de fato em suas famílias paterna e materna.

É esta semelhança do que coloca em seus livros com a sua própria história justamente a característica capaz de tornar Gabriel García Márquez um escritor com cuja arte podemos nos identificar. A despeito de nossas origens, e da distância em que estejamos da sua Colômbia janela para o mundo, é possível enxergarmos um traço das nossas crenças ou das crenças dos nossos em cada José Arcadio Buendía, em cada Remedios, em cada Fermina Daza. Trata-se, como o próprio Gabo insiste em contar, da maior influência sobre ele realizada daquele que foi o autor de sua juventude pobre entre Baranquillas, Sucre e Bogotá: William Faulkner. É preciso falar sobre aquilo que está perto, pois apenas aquilo que é íntimo ou próximo traz autoridade para a transposição em palavras. Assim, mesmo que prevaleça a criatividade de García Márquez em criar um quê de fantástico para todas as personagens, as fontes de inspiração são sempre uma família e um grupo de amigos inacreditável, extraordinário (até mesmo o chefe de Estado e de governo cubano Fidel Castro), que talvez só fosse possível em meio à miscigenação latino-americana.

Nenhum livro de Gabito, portanto, apesar dos projetos de aparente simplicidade, confirma-se nesta crueza. Se em “O amor nos tempos do cólera” há o protagonismo de um amor dito impossível, coloca-se uma espera de cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias para, em seguida, relativizá-la, e torná-la tão banal quanto o correr de algumas horas. Há um homem comprando um espelho apenas porque nele se refletiu, por alguns segundos, a imagem da mulher amada (e inalcançável). Há uma resistência ímpar à renúncia, e há mais uma fêmea forte, aceitando um casamento de convenções com uma ternura quase apaixonada. Já em “Cem anos de solidão”, é preciso ver a evolução (ou involução) de cem anos em uma aldeia perdida no Caribe. Neste meio tempo, uma família quase amaldiçoada, em que se repetem os nomes a todo o tempo, sofre os efeitos de todas as transformações possíveis em um século numa área periférica. Há as companhias de bananas, há as estradas de ferro, há os americanos curtindo a vida, há os amantes extirpando a vida, há os milagres, há os peixinhos de ouro, há riqueza na pobreza – e pobreza na riqueza, complicando a descrição. A diversidade parece ser, então, em último aspecto, a síntese do trabalho que Gabriel García Márquez vem exercendo desde quando era garoto e escrevia apenas histórias em quadrinhos. Uma profusão legítima da terra, designada a terminar somente sob os poderes do vento – tal e qual uma profecia de Melquíades.


Fontes:
MÁRQUEZ, Gabriel García. "Cem anos de Solidão".
MÁRQUEZ, Gabriel García. "O amor nos tempos do cólera".
MÁRQUEZ, Gabriel García. "Viver para contar".

A imagem que ilustra este post é da cidade colombiana de Aracataca, cidade-natal de García Márquez, e foi retirada deste site.