Saturday, November 19, 2005

Arte, amor e Frida



A arte latino americana tem sido por muitos desvalorizada e criticada em razão de apresentar-se, segundo alguns autores, como mimetismo. Simples imitação das "artes superiores". De fato, muitos dos artistas (do século passado e do nosso) foram estudantes de escolas de fine arts européias e americanas. Contudo, pode-se dizer que Frida é um produto do seu tempo, da sua terra. A arte mexicana destaca-se como um inigualável locus da Arte Moderna da periferia.

A vida de Frida Kahlo é permeada por uma série de tragédias. A partir do acidente de ônibus, como o retratado no filme "Frida" da diretora Julie Taymor, ela começa a pintar por estímulo de seu pai. Embora tenha tido lições de desenho e escultura na Escuela Nacional Preparatoria, no que concerne a pintura em si, pode ser considerada autodidata. A impossibilidade de engravidar trazia-lhe um forte sentimento de angústia e de impotência. Entretanto, a despeito da dor que estes eventos representavam, a pior das tragédias de sua vida foi, ela dizia, ter conhecido e amado Rivera, um "mulherengo" inveterado. Edward Lucie-Smith chega a dizer que a veneração de Frida por Diego fê-la sustentar uma posição secundária no mundo das artes, sendo retratada sempre como "a mulher do grande muralista mexicano". Sendo a sua obra em grande medida autobiográfica, ela transformou-se em um ícone do sofrimento, fato que rendeu-lhe o apelido de Santa Frida. No entanto, a sua arte possuía uma importância muito maior do que esta.

Smith atribui às mulheres, bem como às artes da América Latina, um importante papel. Devido ao machismo ainda preponderante, ela é classificada como "coisa de mulher", enquanto que a política e a ação militar são vistas como funções masculinas. Destaca que é essa a exata diferença entre a obra de Frida e de Rivera. A primeira, se caracterizou pelo intimismo e pela subjetividade presentes nos sentimentos e nos pensamentos da artista. O segundo, tende a provocar impasses devido ao seu trabalho iminentemente político. Pode-se citar como exemplo o mural derrubado, ainda que não completo, no Rockeffeler Center, em virtude de um esboço que fazia alusão a Lênin; da sua ação como importante líder do comunismo mexicano e do seu desejo de se aproximar do público (adquirindo, inclusive, uma função didática; fazendo-o se distanciar da característica simbolista e do cubismo, antes praticado por ele; e levando-o a adoção uma arte mais figurativa que visava a educar o povo). A arte, ainda segundo Smith, seria um meio pelo qual o povo latino americano construiria a sua identidade nacional, era o reflexo da essência do povo. Nesse sentido, a influência exercida pelo indianismo –retorno aos povos pré-colombianos –e, no caso da Frida, dos retablos, pinturas feitas por andarílhos do período colonial, faz com que a pintora tenha antevisto o futuro dos movimentos artísticos de seu país, qual seja, a transição dos antepassados pré-colombianos para a cultura folclórica.

Atribui-se o sucesso (póstumo) de Frida, à emergência de movimentos feministas e da busca de ídolos e heroínas que simbolizassem o poder e o sofrimento da mulher. Traída por seu marido, desafiou a moral da época. Sua mãe, muito religiosa, desaprovava a promiscuidade da vida de Frida: Repudiava as relações homossexuais e extraconjugais de sua filha. A despeito de todo o preconceito, como foi dito acima, a sua participação política era ativa (especula-se que chegou a mudar a data de seu nascimento para 1910, a fim de conjugá-lo com a Revolução Mexicana, além de hospedar o revolucionário russo exilado Leon Trotsky do qual foi amante).

Por fim, a obra de Frida é um mundo de sentimentos e emoções. Um desafio ao sofrimento, à alegria e à doença. Uma representante da arte mexicana. Do folclore mexicano. Uma artista de vanguarda. Uma mulher de vanguarda. Um ícone feminino não da dor mas da força. Uma mulher que não cedeu aos moralismos, que agiu segundo os seus princípios e floresceu ante o árido caminho que tinha a sua frente.

18 Comments:

Blogger Manoela Assayag said...

Ah! a Frida. Para começar, digo que achei o filme muito, muito aquém da história dela. Quer dizer, não poderia dar mesmo certo, não? Afinal, fazer um filme sobre Frida e retratá-la sem seu característico bigode... imagina se fosse sobre Hitler ou sobre Bismarck? Perderia todo o sentido.

Voltando ao que importa! Discordo que Frida seja "um ídolo não da dor, mas da força". O trabalho de Kahlo foi agregar a dor à força, e transformar esses elementos aparentemente contraditórios em elementos combinados. A dor está lá, o tempo todo. Em sua auto-imagem ensangüentada, em sua representação rumo à morte, em sua expressão de quem está prestes a chorar. É como aquela antiga expressão, segundo a qual os verdadeiros corajosos são aqueles que têm medo sempre, mas conseguem viver apesar dele. Frida está machucada a todo tempo; com sua vida amorosa, com suas incertezas existenciais, com a pobreza do seu amado México, com o relevar de sua arte ao segundo plano.

Também não gosto da apropriação feita de sua imagem pelo movimento feminista. Aliás, não gosto do feminismo - assim como não gosto do machismo ou de qualquer outro ISMO que prescreva uma exclusão. A arte é arte, não é arte feminina ou arte masculina. É uma expressão e, sem dúvida, há homens que se sentem representados em Frida ou em sua obra (que acaba sendo também Frida, pois ela realmente apenas pintou a si mesma).

Enfim, não estou sendo muito clara por aqui, vou tentar novamente depois.

Antes que eu me esqueça: parabéns pelo post. Bem abrangente, com excelente recuperação histórica e, novamente, com um tema "excêntrico" (adoro!).

4:36 PM  
Blogger tatiana 24a puc said...

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6:06 PM  
Blogger tatiana 24a puc said...

obrigada manu.

O que quiz dizer era que justamente por enfrentar a dor e, como vc disse, por esta estar presente em todo o seu trabalho, ela é um simbola de força. Não há autopiedade em sua obra, mas confiança no enfrentamento com a morte, esse espectro que a persegui por toda a vida. Poderia aceitar até que dissessem RESIGNAÇÃO com o enfrentamento da morte... mas não. Não é isso. É muito mais. É a coragem de enfrentar toda a dor, todas as cirurgias, todas as traições.

Concordo que o filme é fraco. No entanto, como bem observou a Camila em uma de nossas longas e conflituosas conversas sobre arte, tem uma boa direção de arte. A fotografia é belissima. A falha foi mesmo o bigodinho.

6:09 PM  
Blogger Manoela Assayag said...

Queria ver um filme sobre Frida falando em espanhol, dirigido por um mexicano. Teria tudo para ser mais autêntico.

Quanto à versão norte-americana, temos ainda sorte de que foi FRACA com o projeto nas mãos de Salma Hayek... ao que parece, a pendenga judicial apontava, até os 45 do segundo tempo, para... MADONNA. E, bom, quem viu "EVITA" sabe como isso poderia ter sido tenebroso.

6:17 PM  
Blogger Camila Pontual said...

Os quadros de Frida estão repletos de sofrimento a sua força é vem daí. A sua interpretação da vida é manifestada, os quadros feitos por uma mulher apaixonada pela vida, por Diego, pelas idéias e presa num corpo deficiente são paradoxalmente felizes.Suas obras, sua casa são alegres, coloridos embora retrate cenas, situações de infelicidade. Separar sua arte de sua vida repleta de tragédias e alegrias torna uma perspectiva restrita de seus quadros. Mas Frida sabia que como qualquer artista a interpretação de seu trabalho não cabe ao artista, mas ao espectador. A relação entre o artista e sua obra é análoga a de criador e criatura, a partir da criação a criatura se liberta, se reinventa. Por isso, a arte é tão genial, ela ultrapassa os limites, a concepção do próprio criador. E Frida era uma criadora maravilhosa. E sua relação com Rivera e os muralistas foi muito importante pra ela. A relação dos dois marca maravilhosamente o seu trabalho.

Concordo que o filme Frida não faz jus ao seu trabalho embora acredito ser irreal esperar que um filme consiga transportar a grandeza de sue trabalho. Mas acho que o filme cumpre um excelente papel de divulgar a artista e por isso ele já é muito válido.
Discordo que o resgate dessas obras de Frida, da arte mexicana ocorra pelos movimentos feministas ou qualquer movimento que seja. Acho que a arte é, infelizmente, elitista, as obras de Frida, de Siquero, Posada, e outros artista mexicanos excelentes são há muito conhecidas por poucos assim como até hoje artistas clássicos são. O próprio fato de Nelson Rockfeller ter chamado Rivera para pintar o mural do Rockfeller Center mostra que seus trabalhos, e os trabalhos de artistas mexicanos eram conhecidos por grupos de intelectuais, pela elite. E ainda acredito que as obras de Frida sejam na sua maioria desconhecidas, por isso o filme prestou um bom serviço.

6:57 PM  
Blogger tatiana 24a puc said...

A impressão qu eeu tenho da das cores vivas, da casa chamativa e tbm com a aparência de alegria, tentando transparecer alegria é que, de algum modo, isto servia a um proposito de convencimento. A Frida tentava acreditar que poderia ser feliz. Se conseguiu ou não, fica em aberto a resposta....

12:26 AM  
Blogger Roberta said...

eu achei o posto muito bom! Mas minha avaliação fica mto incompleta pois não conheço muito das obras e ne da peropria frida...a unica coisa q me vem a mente quando penso nela é a monocelha!!
desculpe a ignorancia!
memso assim está muito interessante e bem escrito

10:42 AM  
Blogger Taciana said...

tenho que admitir, diante desse post muito interessante, que de Frida só conhecia o filme...e a monocelha... tá, tudo bem, uma vergonha...
Um tema único, que eu particularmente acho difícil de se escrever, que a Tati fez lindamente. Mas assim como a Manu comentou, também não gosto do movimento feminista..

11:53 AM  
Blogger tatiana 24a puc said...

Acho, diante de tudo o que foi dito aqui, que o brilho da frida não foi ofuscado somente por Rivera, mas e, principalmente, pela monocelha!

7:06 PM  
Blogger tatiana 24a puc said...

Acho, diante de tudo o que foi dito aqui, que o brilho da frida não foi ofuscado somente por Rivera, mas e, principalmente, pela monocelha!

7:07 PM  
Blogger tatiana 24a puc said...

Esqueci. Para aqueles que se interessaram pela arte da mérica latina, não só pelo meu post, mas pelo post da camila tbm, podem procurar na biblioteca o Livro que usei como referência para escrever esse post. O nome é: Latin American Art of the 20th century. Edward Lucie-Smith é o autor. Bem simples, conciso e com fotos lindas! Qualquer um se apaixona. Atenção para a seção dos muralistas. Muito legal!

7:11 PM  
Blogger mayllinha said...

Tati, adorei seu post.

Aliás gosto muito dos seus posts e, infelizmente, não tenho conhecimento sobre o assunto para poder debater algo, mas acho que esse blog também é para ensinar né :)

Achei muito interessante o seu post e toda a correlação que você colocou
Parábens
E apesar das críticas verei o filme hihih

7:12 PM  
Blogger Anna Carol said...

"Nesse sentido, a influência exercida pelo indianismo –retorno aos povos pré-colombianos –e, no caso da Frida, dos retablos, pinturas feitas por andarílhos do período colonial, faz com que a pintora tenha antevisto o futuro dos movimentos artísticos de seu país, qual seja, a transição dos antepassados pré-colombianos para a cultura folclórica."

Tenho uma dúvida. O Romantismo não esteve presente no México também? Se sim, como o indianismo pode ser algo inovador?
Por favor, não interpretem como uma tentativa de achar falhas no post, até porque sendo a Tatiana a autora, não me acho a altura dessa tarefa. Realmente é só uma dúvida, será que alguma pessoa mais esclarecida poderia esclarecê-la?

6:32 PM  
Blogger Laís Tamanini said...

É engraçado reparar que só mulheres comentaram esse post! Os homens não se interessam pela Frida??? Será pela monocelha???

Bem, fora essa observação dispensável, como várias pessoas que colocaram acima não conhecer arte, eu também me enquadro nesse grupo. Mas assisti ao filme. E não é preciso ser um especialista no modernismo no México ou um crítico de cinema para perceber que o filme deixou muito a desejar. Em primeiro lugar, acho que é até uma tautologia dizer, é um filme americano, que como sempre tenta convencer como mexicano, mas nem o respeito pela língua eles tiveram. Ou seja, mataram a alma da história. A escolha do elenco foi também extremamente infeliz. A Frida, pelo o que sinto em seus quadros, era uma mulher de verdade, não um produto hollywoodiano. Dá para perceber que há uma tentativa de "enfeiar" um pouco a Salma Hayek, mas muito contida, ela ainda está extremamente comercial. A interpretação do Alfred Molina como o Rivera estava demasiado caricaturada. O Trotsky simplesmente não convenceu.

Eu concordo com a Manoela quando disse que se o filme tivesse sido filmado por mexicanos teria ficado muito mais autêntico. Eu vi o México, mas definitivamente não senti o México. Novamente, tem que se parabenizar a produção por todos os caracteres técnicos. Só.
Figurino, 10. Fotografia, 10. Sensibilidade, 0. Espírito Artístico, 0.

Mas inegavelmente um excelente programa pipoca de domingo. Acho que a intenção da diretora (ou do estúdio) não devia ser diferente. De qualquer jeito, ela prestou o papel dela à humanidade ao fazer o filme sobre uma personalidade latino-americana fascinante quase desconhecida para um grande número de pessoas, como eu, acharem o filme completamente insuficiente e restrito, e se interessam em buscar além.

11:02 PM  
Blogger Laís Tamanini said...

Só para complementar que eu sou esquecida.

Excelente iniciativa, Tati. Eu não não teria nenhuma competência para fazer post algum sobre arte, apesar de gostar muito disso. Por sinal, obrigada por indicar a sua fonte de pesquisa. Prova oral tá chegando aí, sabe como é, neh?
hehe

11:10 PM  
Blogger Carla Velloso said...

Como sempre a Tati fez um execelente post.
Também concordo com a Laís, as produções Hollywodianas são muito comerciais, o que acaba minimizando o comprometimento em relatar detalhadamente a história real da Frida que certamente vai muito além do que foi mostrado.

O que Frida pintou foi o seu sofrimento, os corpos quase sempre cortados... o sangue.
Acredito que sua dor aumentaria ao observar essa retratação simploria.

10:03 PM  
Blogger Fernanda Alves said...

Nos quadros de Frida é possível perceber algumas retratações americanizadas e outras presevavam o México.

Mas, seria legal fazer algum paralelo com o Brasil. Como por exemplo, a luta dos artistas de ambos os países para alcançar o reconhecimento.

10:15 PM  
Blogger cecilia carvalho said...

Ótimo post tati...
Realmente Frida teve uma vida muito sofrida, como é mostrado no filme, desde o acidente, passando pela impossibilidade de ter filhos e ainda o seu romance um tanto quanto liberal com Panzon ( Rivera). Entretanto podemos reconhecê-la com uma mulher que não pertencia a sua época, pois lutava por seus princípios não se preocupando com os preconceitos.. Além disso, suas reconhecidas obras que retratavam o interior das pessoas principalmente o dela que era muito sofrido.

11:57 AM  

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