Nós devemos vigiar mais os nossos filhos!
Não se preocupe, você não está no blog errado e este não é mais um daqueles textos de auto-ajuda para pais de primeira viagem. É apenas um conselho muito útil para quem acaso deseje se aventurar na cidade do sombrio Vampiro. Afinal a Alemanha de 1931 não é o melhor lugar para deixar seu filho passear sozinho. Um assobio sinistro pode enredá-lo nas tramas maléficas do cruel assassino de crianças! Oh! Que triste sina assombra a doce cidade de Dusseldorf!O trabalho minucioso dos investigadores não alcança resultado algum. Batidas são feitas diariamente pelas vielas do submundo, os camburões já não comportam mais nenhum meliante. Apesar de tanto empenho, o assassino ainda está à solta e escarnece do esforço policial em sua nota sombria: “Ainda não acabei”. Enquanto o povo se agita nas ruas e o alto comando exige providências, a polícia segue rastros imprecisos: fichas de hospitais psiquiátricos, vestígios de doces em lixeiras e grafite vermelha usada para escrever o bilhete.
Nesse triste quadro, são as tristes figuras que assumem os papéis de destaque. Incomodados pelas constantes visitas dos representantes da lei, os bandidos reúnem-se no Sindicato dos Trapaceiros. É preciso eliminar o assassino antes que seus negócios vão à falência! Uma parceria com o Sindicato dos Mendigos cobre a cidade com uma rede insólita de espiões maltrapilhos. Eles estão em todos os lugares e não levantam suspeitas. Onde houver uma criança, lá estará também um par vigilante de olhos mendicantes a espreitar em busca do menor sinal do Mörder. Apesar de tantos olhos atentos, são os ouvidos de um velho cego que apontam o culpado. Ele não esqueceu a melodia que pairava no ar da última vez em que vendeu um balão à pequena Elsie, a última vítima do Vampiro. Sua colaboração coloca o submundo no encalço do criminoso. Para identificá-lo, um M é gravado em giz em sua capa. O M “garranchado” em branco reluz em seu sobretudo negro.
Acuado, Becker (é esse o nome dele) é finalmente cercado e preso. O sindicato mostrou-se mais eficiente do que a força policial. Na República de Weimar pode-se esperar de tudo, mas o mais provável é que o inesperado aconteça. Reunidos em assembléia os trapaceiros esperam o prisioneiro para o julgamento. Ele tem direito a um advogado, mas sua sentença já está definida desde antes de sua captura. A morte será seu castigo. Um último apelo ainda é feito por aquele designado a ser seu defensor: “- O Estado é que deve tomar medidas que o tornem inofensivo para que ele deixe de ser um perigo para a sociedade!”. Mas a resposta é uma sonora gargalhada. O Estado! Nessa Alemanha ele é o último elemento a ser considerado.
Aposto que você está pensando que acabou. Já consegue até ver a multidão enlouquecida pendurando o vilão numa forca, mas lamento destruir seus devaneios. A polícia chega ao local guiada por um delator. "Em nome da lei você está preso!" É a última fala que se escuta enquanto um policial segura o assassino e o livra da morte certa. Agora seus devaneios sobre forcas e linchamentos devem ter sido substituídos por um profundo questionamento. Talvez até um cínico pensamento: E eu com isso!? Tomo a liberdade de encerrar então da mesma maneira que o diretor: "E nós... Nós devemos vigiar mais os nossos filhos!" Entenda como quiser.

